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Conectando Negócios

Valmir Ortega usa o trabalho para defender a floresta e gerar renda para organizações de base e cooperativas ajudando a proteger os diferentes biomas e incentivando a geração econômica das famílias locais


Foto: Theo Marques/UOL

Reportagem: Felipe Augusto, colaboração para Ecoa/SP

Edição: Fernanda Schimidt


"Estamos vivendo tempos difíceis. Vemos, de fato, um processo de desmonte do arcabouço legal, um desmonte da estrutura institucional que vem sendo criada ao longo de décadas no Brasil. Esse desmonte ambiental tão acelerado leva a imagem e o posicionamento do Brasil de forma muito negativa globalmente.


O país nunca foi tão malvisto lá fora como é hoje, e é malvisto pelos consumidores dos nossos produtos, pelos governos que potencialmente poderiam ser nossos aliados. É malvisto pelos fundos de investimento globais, que cada vez mais estão fugindo do Brasil.


Mas, ao mesmo tempo, esse processo acaba fazendo com que setores que nunca se mobilizaram ou que nunca tiveram uma postura muito ativa nesses temas [de desmatamento e proteção da floresta e de comunidades locais] sejam obrigados a se mobilizar.


Temos visto o movimento de grandes empresas, bancos e frigoríficos, em parte motivado por esse movimento contraditório, que acaba provocando reações, e levam setores que ficaram em cima do muro, sejam obrigados a tomar um posicionamento.


Nunca podemos olhar somente sob um ângulo, tem um lado que sim, é triste, mas também mostra uma face de esperança, de mobilização e de engajamento da própria sociedade civil, que tem se fortalecido e criado a capacidade de reagir a esses processos".


Valmir Ortega


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É meio da manhã e já está tudo pronto para o bate-papo. Às 10h, recebo uma mensagem por áudio explicando que haverá um pequeno atraso na entrevista. A chuva que caía em Curitiba (PR) tinha deixado o trânsito mais intenso que o de costume.


"Tivemos dias muito quentes. A chuva veio em boa hora, aliviou um pouco o forte calor que estava fazendo", diz com um sorriso no rosto Valmir Ortega, cofundador do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) algum tempo depois, já em casa, com o sol voltando a iluminar a cidade.


Sua trajetória profissional começou quase despretensiosamente. O empresário conta que o que era para ser uma rápida passagem se transformou em seu grande trabalho. "Entrei para ajudar a estruturar uma área na Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul. Era para ser temporário, algo em torno de três a cinco meses, mas fiquei por 12 anos em diferentes cargos e governos. Fui para Brasília, onde atuei como diretor do Ibama, e na sequência me mudei para o Pará para assumir como Secretário Estadual de Meio Ambiente", resume.


Em Curitiba há quase dez anos, ele conta que fortaleceu relações com organizações da sociedade civil por conta do trabalho na área governamental e passou a ter clientes do terceiro setor quando atuou como consultor ambiental.


"Em meados de 2013 e 2015, discutia-se muito sobre como buscar novos caminhos para o desenvolvimento da Amazônia, imaginando que já tínhamos conseguido baixar os patamares de desmatamento para níveis minimamente controlados, ? ilusão que existia à época ?, o desafio era: como criar novos mecanismos econômicos e dinâmicas para as comunidades que viviam na floresta e que ajudam a mantê-la em pé", Valmir Ortega.



Economia a favor da floresta


Motivado por entender essa dinâmica, ajudou a fundar a Conexsus, focada em apoiar as organizações de base comunitária que atuam na Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga, ajudando a proteger os diferentes biomas e incentivando a geração econômica das famílias locais.


O Instituto Conexões Sustentáveis atua para aumentar a renda dos pequenos produtores em seus negócios comunitários rurais e florestais, melhorando economicamente a vida das comunidades e ainda favorecendo a proteção da biodiversidade local.


"A grande motivação da Conexus sempre foi olhar para o chão da floresta e dos diferentes biomas e enxergar as enormes possibilidades de valorizar aqueles produtos e aquelas comunidades, se fossemos capaz de conectá-las melhor com um mercado mais justo e em condições mais adequadas", explica.


A organização, que também atua com recursos de financiamento, começou a notar que era preciso trabalhar no aperfeiçoamento e incentivo da capacidade dessas comunidades de gerirem os seus próprios negócios.


"As cooperativas tinham muita dificuldade em fazer a gestão de seus recursos e planejamento financeiro e, por vezes, acabavam sendo injustiçadas perante o mercado pela sua baixa capacidade competitiva e isso minimiza fortemente o impacto positivo que essa atividade econômica poderia gerar para a comunidade", comenta Valmir.


Um dos diferenciais está no modo de atuação, dividido em três eixos: modelagem de negócios de impacto; ampliação e fortalecimento das conexões entre produtores, indústria, varejo e consumidores; e soluções financeiras inovadoras.


"Vimos que existia outro conjunto de barreiras. Entendemos que um dos nossos focos deveria ser ajudar a aumentar a capacidade dessas cooperações, dar a elas ferramentas para gerirem os próprios negócios. Percebemos que era vital fortalecer a capacidade dessas organizações como empresas comunitárias, contribuir na gestão de negócios para colocar mais valor em seus produtos e, por fim, no posicionamento de marca", finaliza.


Com isso, aproximadamente 7.500 famílias já foram beneficiadas pela Conexsus, cobrindo uma área com mais de 175.000 pessoas diretamente impactadas por um ecossistema econômico que preza pela preservação da biodiversidade e contribui para a superação da pobreza e da exclusão social.





As sementes da Conexsus


A Manioca é um exemplo de sucesso que foi impactada positivamente pela organização. Joanna Martins, CEO e diretora de operações da empresa, conta que conheceu o Instituto Conexões Sustentáveis em um edital de 2018, do Programa Parceiros pela Amazônia.


"A visão da Conexsus foi muito importante para nós, porque, além de cederem o empréstimo 'não tradicional' para o nosso negócio, nos ajudou a também enxergar que o nosso projeto era um empreendimento socioambiental. Foi por meio das monitorias, aulas e workshops que nos demos conta que já fazíamos algo positivo, nos faltava apenas medir esses geradores de impacto ambiental", conta Joana.


A empresa, que promete transformar os ingredientes da Amazônia em alimentos naturais e práticos, a partir do comércio justo e do desenvolvimento de cadeias produtiva, conseguiu manter suas atividades ativas, mesmo diante da crise da covid-19, e expandir seu negócio no ambiente online, que já representa cerca de 20% do volume de vendas.


A CoopCerrado também viu seu negócio crescer com a ajuda da Conexsus. Alessandra Karla da Silva, coordenadora de negócios sustentáveis, conta que graças à Conexsus pôde ver o seu negócio se expandir, ganhando até reconhecimento no mercado internacional.


"Somos uma cooperativa que atua em rede. São mais de 5.000 famílias, 270 produtos de marcas próprias e orgânicas em mais de 131 municípios de vários estados. Fomos a primeira organização de base a ter acesso ao fundo de investimento cedido pela Conesxus e receber o treinamento de aceleramento", relata a coordenadora. A CoopCerrado representou o Brasil no Prêmio Equatorial das Organizações das Nações Unidas (ONU).



"(...) Com pouco, esse rio se entedia de tanta planura, de tanta lonjura, de tanta grandura, e volta para sua caixa. Deu força para as raízes. Alargou, aprofundou alguns braços ressecos. Enxertou suas areias. Fez brotar sua flora. Alegrou sua fauna. Mas deixou no pantanal um pouco de seus peixes. E empenhou de seu limo, seus lanhos, seus húmus, no solo do pantanal", Um rio desbocado, de Manoel de Barros.




Como um poema sobre o rio Taquari


Preocupado com o futuro e com o uso dos recursos naturais, Valmir decidiu se aventurar em um novo projeto no ano passado e fundou uma empresa de impacto socioambiental, orientada para resolver problemas da sociedade e do meio ambiente.


A Belterra busca parcerias com pequenos e médios agricultores para criação de florestas produtivas em áreas degradadas, melhorando a vida dos produtores familiares e, prioritariamente, recuperando áreas e fazendo a implementação de sistemas agroflorestais.


"O nosso desafio é desenvolver negócios que ajudem a recuperar áreas degradadas, ajudem a recuperar a floresta e também a superar o abandono de pequenos e médios agricultores no Brasil em relação à assistência técnica, ao acesso e ao financiamento", explica o empresário sobre a nova empreitada.


E é nesse leito de rio onde Valmir decidiu passar - pelo menos até o momento - os seus dias, ao lado da família e dos filhos, aprendendo sobre as novas gerações e buscando entender com o tempo, olhando e se inspirando em jovens lideranças.